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Perco-me entre textos, poesias e músicas, percebi então que a melhor forma de arquivar era dividir. Nesses anos, muito do que não se perdeu foi graças a quem acompanha meu trabalho. Assim, na imensidão virtual deixo essas pegadas, parecem dois únicos pés, mas acreditem, carrego muito de vocês aqui.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Nada nos pertence, nada podemos exigir

“Uma árvore que cai faz muito mais barulho do que uma floresta que cresce”. E quantas árvores desabam à nossa volta todos os anos? Diante das clareiras do que não mais nos cerca, surge nosso nu espiritual, uma experiência que nos ridiculariza, mas que surge para também nos fortificar.
De onde vieram nossos inimigos? O que odiamos, repudiamos e alimentamos? Por que o fazemos? Sempre há e sempre haverá pontos de interrogação em meus textos: escondê-los seria disfarçar quem realmente sou, pois há mais dúvidas do que até mesmo água em mim.
No giro da moeda profetizamos sorte ou azar: que lado o destino escolherá e qual lado escolherei? E assim, todos os dias, nos lançamos ao ar. Reclamamos da fila do supermercado, do imprevisto no trabalho, do acaso que todos os dias nos toca o ombro e faz olharmos para trás. Raramente nos ocorre que as coisas são porque são e, se aqui ainda estamos, por que não aceitá-las?
Todo ódio contra alguém é o ódio contra si. Junto dos anos se acumulam medos. Pensar neles seria doloroso, então os reservamos ao subconsciente, fingimos esquecê-los e, sem percebemos, passamos a ser controlados por eles. Pense por um minuto na maior tristeza da sua vida, a maior dor que lhe coube. Reflita sobre a exata situação a qual foi exposto na época e toda a dor que sentiu. Agora pense: como isso me influencia hoje? Você olha para os dois lados antes de atravessar a rua? Você dorme do lado direito da cama? Come assistindo o jornal do meio-dia? Desvia o olhar dos que lhe encaram?
Um sábio foi indagado: “O que faço quando, na meditação, um demônio se aproxima?”. O sábio respondeu: “Põe o demônio a meditar contigo”. Todos têm seus demônios e traumas que se tornam imperceptíveis. Para notar o que nos tornamos precisamos nos assumir aos medos. É doloroso, mas tão necessário quanto encher nossos pulmões de ar a cada segundo. Os resultados demoram a aparecer – talvez décadas –, porém, um dia vivido na intensidade de nos sentirmos perceptíveis aos motivos de nossos prazeres e desprazeres é mais poderoso que cem anos de tormenta.
Sempre haverá uma interrogação em sua vida, a dúvida está presente mesmo em pessoas iluminadas e repletas de paz. A diferença não está em tê-las ou não, mas em como lidar com elas.
Os medos nos isolam como se todos à nossa volta soubessem lidar com os seus, como se nadássemos sós em uma imensidão de angústias. Na ânsia de não nos afogarmos, queremos ficar acima das ondas, mas somente quem se deixa submergir percebe quantos corpos nos cercam, corpos daqueles que exauriram suas forças tentando, justamente, não se afogarem. Para perceber que não estamos sós, precisamos colocar nossos demônios a meditarem, tomar fôlego e descemos à profundidade de quem realmente somos.
Quando começamos a dialogar com nossas atitudes e investigamos aquele sentimento ruim que nutrimos por alguém, quando mesmo diante da cegueira da inveja, da cobiça e de tantos outros medos passamos também a ver os motivos que nos levam a isso, passamos então a ter perspectivas da paz. É quando paramos de culpar o mundo que assumimos a responsabilidade pela moeda que dança no ar. Não se trata de sorte ou azar, se trata de uma única moeda e seus dois lados, o giro contínuo que põe amigos e inimigos, alegrias e tristezas, promessas e mentiras, tudo lado ao lado, tudo pertencente a essa moeda a qual damos o nome de vida.
É impossível passarmos por aqui sem provarmos. Alguns dançam rumo ao conhecimento, outros rastejam um labirinto de pedras. Não se trata apenas das escolhas: trata-se de reconhecer que, por mais que façamos o que nos pareça nobre, ainda assim a moeda seguirá girando. Não se trata de vencer ou perder, mas de aceitar que não somos donos de nossas vidas, não fomos nós que nos autocriamos. Estamos à mercê do que não controlamos. Nada nos pertence e nada podemos exigir. A floresta cresce em silêncio e ela é grandiosa, nossos gritos são fortes, mas não nos impedem de cair. Ouça o que o silêncio diz.

terça-feira, 7 de abril de 2015

Humanidade em queda: Quanto tempo leva para cairmos na real?


Necessitamos estar certos, mas por vezes juro que não desejaria. Em uma semana escrevo sobre a depressão que a cada 40 segundos leva uma pessoa ao suicídio. Na semana seguinte, um cara decide jogar um avião cheio de histórias contra montanhas. Um ano antes aviso sobre a violência próxima a explodir em nossa pequena cidade e no ano seguinte batemos recorde de assassinatos. Eu encho a boca pra dizer que esse país não tem solução e cada vez mais pessoas concordam com meu desânimo. Todos esses acertos nada significam para mim.

Eu acredito na força do pessimismo, penso inclusive que por vezes ele seja mais poderoso que esse lance de ver um lado positivo em tudo. Aliás, desconfio dos demasiados sorridentes e suas certezas sobre o homem caminhando para a harmonia. Essa necessidade de nos vangloriarmos em espécie é uma projeção da sobrevivência, só isso. Nós nos sentimos importantes, fundamentais, o centro... Dessa forma não nos abalamos ainda mais com essa loucura que nos é esfregada na cara. Ser positivo é estacionar no amarelo do irreal.

Essa maldade intrínseca nos intimida. O acesso e a velocidade da informação nos trouxeram a dilacerante imagem dos monstros e, olha só, eles se parecem conosco. Por um segundo parei a observar o jovem de 21 anos que covardemente matou outro cravando-lhe um copo na garganta: ele parecia tão humano! Suas linhas, seus olhos, suas roupas... Poderia passar por mim diversas vezes no dia sem que eu suspeitasse da demência que lhe acompanhava. É isso que nos apavora: ver no reflexo da maldade um rosto meramente humano.

O outono está chegando, junto dele a sensação de que tudo está igual e nada vai bem. Será que o mal está vencendo? Queria sinceramente acreditar que não, queria mais uma vez estar errado, mas, quanto mais andamos, mais nos deparamos com o despreparo humano para tal caminhada. É um jogo de estica e puxa, gente derrubando gente, interesses ditando relações, conexões frágeis feito guardanapos em refrigerantes.

Tanto potencial desperdiçado. Você para a fim de observar um casal de velhinhos e pensa: que espécie incrível somos: inventamos o amor e com ele nos transformamos. Vemos um garoto brincar com seu cãozinho e sorrimos a graça das diferenças que se completam. Vemos um avião erguer-se e contemplamos nossa capacidade de aprender com os pássaros. Será que um dia apagaremos as linhas imaginárias que dividem pessoas? Será que um dia nos solidarizaremos com as vítimas de guerras que já duram dois mil anos? Será que um dia andaremos pelas ruas sem o risco de encontrar outros jogados ao frio? Seria, é, tão simples, já tivemos tanto tempo, mas nunca parecemos realmente tentar acabar com isso.

Assim se fez nossa história: de guerras, chacinas e ganância. Nossas religiões foram responsáveis por mais sofrimento do que salvação. Nossos deuses servem de desculpas para odiarmos outros. Todas as soluções se voltaram para o “eu”.

Não há desgraça que nos surpreenda e para a loucura buscamos justificativa. Como no caso do garoto morto no banheiro de uma festa: “ele deve ter feito alguma coisa”, então, diante de testemunhas que afirmam que ele não fez absolutamente nada, entendemos mais um pouco da insanidade a qual todos estamos expostos.


Um poeta cantou: “as pessoas têm medo das mudanças. Eu tenho medo que as coisas nunca mudem”. Hoje, décadas depois, canto-lhe triste em resposta: Eu também, eu também... Amém.

sexta-feira, 20 de março de 2015

Se eu não fosse estúpido, queria ser Diógenes

Já fui abordado tantas vezes por mendigos que penso ser difícil alguém nunca tê-lo sido. Eu poderia dizer moradores de rua, mas nem sei se todos esses moram realmente na rua – além  do mais, acho legal a palavra mendigo, a interpreto como “um sábio desconhecido”.
Há quem se esquive desses caras maltrapilhos que vagueiam transportando sua sujeira e seu silêncio pelas ruas noturnas que nós mal conhecemos. Pode ser um reflexo medonho da realidade, uma percepção a qual queremos evitar sobre o tanto em comum que temos com aqueles seres tão desprezados pelas massas.
Quem já parou para conversar com um cabeludo de cobertor nas costas sabe que as doses de loucura são geralmente bem menores do que as de lucidez. Isso é um choque danado: notar a tão tênue linha que separa as condições sociais. Você fala com esse cara por 5 minutos e só encontra justificativas para ele ter acabado nessa; falando por 10 minutos surge um contraste entre a sapiência e demência total; agora, se você conversar com ele por 1 hora, logo, você se tornará um igual, ouvirá suas histórias e irá se deparar com o mendigo que existe dentro de você mesmo – de todos nós.
Não sei bem por que entrei nesse assunto, talvez seja a influência dos livros de Diógenes, alguns dos quais eu estava relendo há algumas semanas. O Diógenes em questão era um mendigo que vagava pelas ruas de Atenas, morava em um barril – sim, ele inspirou a residência do personagem Chaves – e era sempre visto portando uma lamparina sobre o argumento de que a usava como luz para encontrar um raro homem ainda honesto. Esse vagante constantemente chamado de cão era, na verdade, um antigo discípulo do filósofo Antístenes, o qual fora pupilo de Sócrates. Diógenes acreditava que o possuir era a destruição do homem e por isso teria abdicado de qualquer bem. Também desprezava a opinião pública de uma sociedade corrupta e sem valores.
Há uma história bastante conhecida sobre um encontro de Diógenes com o então e já todo poderoso Alexandre, o Grande. Dizem que certa vez Alexandre parou de frente ao judiado homem que tomava sol. Sem perceber que havia tapado a luz, indagou: “Diga-me, homem, o que posso te dar”. Diógenes respondeu-lhe: “Não me tires o que não podes dar!”
Um homem comum teria visto desrespeito em tal resposta, mas Alexandre não era um homem comum e, enquanto pessoas do povo e os próprios guardas de Alexandre riam daquele velho homem, ele disse: “Se eu não fosse Alexandre, queria ser Diógenes”. Todos se calaram.
Vejo uma beleza ímpar em tal citação. Ela demonstra a percepção de um homem que tinha tudo, mas que sabia na verdade não possuir nada. O poder era a âncora que prendia Alexandre à mediocridade dos que, assim como mendigos – só que sem a alma –, ficam a vagar bajulando aqueles que podem lhe garantir disfarces para a pobreza interior.
Pode parecer ilógico pensar isso, mas talvez esses que andem por aí como se fossem invisíveis, visto como loucos, sintam muito menos o peso do mundo do que nós. Sou livre? Por quê? Por poder escolher a cor da embalagem de maionese? Por possuir alguns papéis na carteira que me dão o direito de entrar em uma loja? Eu não faço ideia de qual seja o nome da última atendente que me recebeu e me vendeu algo – e olha que ela não se vestia nem cheirava como um mendigo.
Não podemos combater a pobreza com Bolsa-família ou moedas no semáforo. Não se engane com o que os olhos lhe permitem ver: a miséria é interna e todo nosso esforço para escondê-la não faz com que ao fim do dia ela ainda não esteja lá.


quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

O nó górdio

Conta a lenda que em 900 a.C na antiga Frígia – onde hoje fica localizada a Ásia Menor, um rei morreu sem deixar herdeiros. Os oráculos então anunciaram: “o novo rei chegará em um carro de bois”. Um camponês de nome Górdio que chegava à cidade sem pretensões foi quem acabou coroado. Em agradecimento aos deuses e para que nunca se esquecesse de onde veio, Górdio amarrou sua carroça no templo de Zeus, mas amarrou-a de tal maneira que o nó usado era dito indesatável. Assim, Górdio reinou próspero, sendo substituído somente mais tarde pelo seu filho, Midas. Midas, porém, não deixou herdeiros ao morrer e os oráculos foram novamente consultados. “Herdará toda Ásia Menor aquele que desatar o antigo nó de Górdio”, disseram. Durante 500 anos ninguém havia sido capaz de desatar o nó. Em 334 a.C, Alexandre, o Grande, ao passar pela Frígia e conhecendo a lenda do famoso nó de Górdio, decidiu ir ao templo de Zeus para ver se de fato lá existia um nó impossível de ser desfeito. Analisou por horas o emaranhado das cordas sem em nada tocar, até que sacou sua espada e simplesmente cortou o nó. Lenda ou não, Alexandre viria pouco tempo depois a se tornar rei de toda Ásia Menor.

Na Europa a expressão “cortar o nó górdio” é bastante conhecida. Ela significa, basicamente, resolver um problema da maneira mais objetiva possível.

Essa história me chamou atenção algumas madrugadas atrás, enquanto pensava nos problemas que o Brasil enfrenta e na situação limite em que nos encontramos. É bem provável que estejamos enfrentando nossa pior crise até hoje. E não me refiro à crise econômica e todos aqueles números comparativos sobre educação, índices de desenvolvimento etc., mas, sim, ao fator violência.

Um país pode ser pobre, pode ser desigual, ter pessoas passando fome e não possuir base alguma de educação, ainda assim esse país pode não ser violento. A violência não é somente um ato extremo. Antes de tudo, ela precisa existir em sua mais exacerbada forma dentro daquela pessoa, daquele grupo. A violência extrema é herdada e precisa ser praticada diariamente. Hoje, no Brasil, são raros os lugares onde, por exemplo, as pessoas podem sair de madrugada para caminhar. Aliás, você conhece algum lugar assim? Agora pense um pouco: saia do que você aprendeu a tratar como normal e pense novamente nisso: hoje, no Brasil não podemos nem sequer sair para caminhar a hora que desejarmos. Esse é o extremo da violência.

Juízes estão soltando assassinos, estupradores, pessoas cruéis que não sentem o menor remorso em matar. Juízes, pessoas estudadas, influentes e muito bem remuneradas, dizem: “Os presídios não suportam”. Vejam bem: a frase “os presídios não suportam” sucede a frase “ele estuprou e matou” e isso mostra em que situação nosso país chegou.

A morte do surfista Ricardo fez muitas pessoas repensarem o extremo em que chegamos. Ricardo não era apenas um surfista que rodava o mundo representando o Brasil, o cara era amado onde vivia, tinha projetos sociais, ajudava todos do bairro e foi assassinado cruelmente pelas mãos que nos deveriam proteger.

Vejam a situação que chegamos. Policiais podem nos matar a qualquer momento, juízes soltam assassinos estupradores. A lei está a favor dos bandidos. Para termos uma ideia, hoje o governo gasta R$ 45 mil reais por ano com cada presidiário, enquanto com um estudante das redes públicas o valor investido é de R$ 15 mil.

Meu questionamento é o seguinte: existirá alguém capaz de desfazer esse nó górdio que condena nossa liberdade ou teremos de esperar centenas de anos para que surja alguém verdadeiramente grande neste país?

Olho para cima e para os lados, tento até olhar para baixo, mas entre homens de terno e uniforme, não vejo nada além de covardes.

sábado, 24 de janeiro de 2015

À beira da extinção emocional

Há dias que a vida parece tão escassa de opções... Acordamos vendo aquela mesma parede de tantos anos, o brilho da tinta já não é o mesmo, os móveis que um dia admiramos se tornaram invisíveis. A questão aqui poderia ser a velhice, mas não: refiro-me mesmo à angustiante rotina que se acumula feito pó em ventiladores há muito tempo parados.
De fato, a estabilidade é uma busca humana. Ela se tornou primordial em épocas nas quais a escassez de alimento ameaçava nossa existência. Foi em busca da estabilidade que os homens se desenvolveram social, econômica e tecnologicamente. Foi assim ao longo de 20 mil anos que desenvolvemos a necessidade pelo saber. Controlar era sobreviver.
Podemos hoje, deitados em nossas camas observando o mundo na palma de nossas mãos, não percebermos o quanto ainda somos ligados àquelas criaturas que se reuniam ao redor de uma fogueira balbuciando descobertas. Nossa sede de sobrevivência cumpriu sua função. Sobrevivemos, mas que herança tenebrosa trazemos de tempos tão selvagens?
Essa compulsão “cavernística” pela estabilidade trouxe consigo uma necessidade que conflita com nossa forma atual de existir. O homem estável é aquele que busca, mas o homem que busca além do que compreende é o mesmo que se afunda em frustrações.
Muitos estudiosos concordam que vivemos a era mais triste de toda história humana. Imaginem que toda nossa necessidade, todo nosso avançar científico visava à sobrevivência, logo, diante da estabilidade da perpetuação, passamos a adotar um novo critério chamado felicidade. Mas se a felicidade passa a ser uma necessidade ao mesmo tempo em que não há fórmula para sermos felizes, paradoxalmente vamos em direção ao ser humano em sua tristeza constante.
Se retrocedermos cem míseros anos e pensarmos em todos aqueles relatos de como as pessoas sobreviviam, notaremos que, apesar de todas as limitações, elas viviam mais intensamente o presente: a menor expectativa de vida limitava a expectativa de futuro – algo sobre o qual não temos poder. Hoje, vemos pessoas de 20 anos planejando para quando chegarem aos 70. Desse choque entre querer o que não se sabe e planejar o que não nos pertence surge nosso modelo atual de sociedade na qual a frustração se tornou mãe da tristeza, e o pior, uma tristeza que precisa ser disfarçada, pois nos foi dito que todos podem e devem ser felizes.
Houve uma mudança no sentimento humano quanto à existência, isso é inegável. Se essa mudança pode ser a base de uma evolução benéfica ao ser humano em si? Impossível dizer. O que podemos facilmente constatar é que ainda somos inteiramente primitivos ao ponto que quanto mais podemos externamente, menos conseguimos internamente. Por exemplo: temos centenas de amigos virtuais, mas nos sentimos desconectados do mundo. Sabemos os malefícios de diversos alimentos e drogas, no entanto vivemos a doença da obesidade e uma em cada cinco pessoas é diagnosticada com depressão.
A cada 40 segundos, uma pessoa comete suicídio no mundo. Pensem um pouco nisso. Não se trata de salvar outros, mas de pararmos para refletir. Será que tanta aflição, tanta busca, tantos planos para daqui tanto tempo vão ao encontro de um sentido de viver?
Pense, sem medo, apenas pare tudo e pense. Será que sua aflição não é a obrigação em ser feliz? E seus planos, são realmente seus? E o seu hoje, ele é mesmo hoje ou se tornou um amanhã que nunca chega? Apenas pense.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Desafio sem make

Não lembro ao certo minha idade, nem lembro de ter sido avisado pelo espelho, penso então que foi o forçado convívio comigo mesmo que acabou por ocultar os fios de cabelo que caiam sem serem substituídos. Como eu estava dizendo, não lembro ao certo quando percebi estar perdendo o cabelo, provavelmente nem tenha sido eu avisado pelo espelho, mais provável tenha observado meu pai, meus avós.
E dá para fugir dessa tal genética? Lembro que um dos primeiros livros que li tentou me avisar: “O que mais odiamos em nossos parentes é sermos parecidos com estes”. Muitos devem estar se dizendo agora: “eu não sou nada parecido com aqueles idiotas”, mas quero lembrá-los que neste caso a negação é um dos primeiros sintomas do vínculo.
O ódio, aliás, tem essa particularidade, pertence à mesma moeda do gostar. Logo, se gostamos estamos há um passo de odiar e quando a odiamos talvez o que não suportemos seja o fato de termos os mesmos defeitos.
Misturei tudo, eu sei, é que esse lance de cair o cabelo me faz questionar muita coisa. Comecei a tomar medicação uns cinco anos atrás, tudo para não seguir a tradicional linhagem dos carecas da família. E sabe o que mais me deixa inquieto nisso tudo? Os cinco anos. Eu juro que parece ter sido ontem: menos mal que a medicação parece ter funcionado, pois os poucos cabelos que eu tinha na época ainda me restam, ainda.
Permita-me essa ‘conversa’ mais descontraída para confessar outro crime contra o tempo. Um ano atrás o dentista me avisou: “Tem que tirar os sisos”. Segundo ele era para ser feito logo, mas aqui estou eu e meus quatro sisos. Parando para pensar agora, acho que existe uma lógica para ainda não ter voltado ao dentista, afinal, se sou apegado a fios de cabelo, imagine aos dentes.
É, há intimidades que não podem ser contadas, talvez eu esteja indo longe de mais, mas esse lance de esconder o que todo mundo faz é um sintoma claro da máxima que se tornou a aparência.
Alguns meses atrás as garotas se desafiavam na internet a postarem fotos sem maquiagem, então a gente para para pensar: mas o normal não seria elas estarem se desafiando a postar fotos maquiadas? O fato é que ninguém mais se aceita como é. A morena quer ser loira, a de cabelo liso quer deixar crespo, o magro quer ganhar músculos e o gordo quer ser magro. E se existisse um comprimido que me desse dez centímetros de altura eu já teria tomado. O que eu ganharia com dez centímetros a mais? Nada, mas alguém em algum canal da TV certa vez me disse que altura era importante e infelizmente algo em mim acreditou.
E a gente cresce ouvindo: ‘Seja o que você é’. O pai nos leva para a escola e quer parar o carro em frente ao portão, se nós o reprovamos ele diz: “Você não tem que ter vergonha de quem é”. Mas quem se é quando se tem sete anos? Aí você assiste a um filme do super-homem e pensa: “Eu quero ser alto, forte e usar a cueca por cima da calça”. Loucura essa tal lucidez.
Mário Quintana escreveu: “Se eu amo meu semelhante? Sim, mas onde encontrar meu semelhante”. Como poderíamos aceitar e amar o próximo se não aceitamos nem a nós mesmos? Como podemos viver uma plena alegria se acreditamos que dez centímetros nos fariam mais felizes?
Simples vaidade ou ocultação? Não podemos esquecer nosso real rosto, pois maquiagem nenhuma dura para sempre.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Para cada dose de loucura duas de razão


Nunca evitei um assunto pelo medo da polémica que este poderia gerar, também, nunca escrevi um texto pensando em polemizar. Os resultados desse equilíbrio eu encaro com satisfação e até um pouco de surpresa: Jamais fui ofendido ou taxado seja pessoalmente, por e-mail ou nas ligações que recebo relativas aos assuntos os quais abordo.

Pode-se dizer que somos moldados a partir de nossos convívios. É aquele amor materno que nos livra do ódio, as risadas com os amigos que nos dizem que ainda vale a pena viver, o cidadão bêbado no balcão a nos mostrar o quanto podemos ser chatos. Através dos exemplos controlamos os estremos. Desde modo, a cada texto que exponho meu ponto de vista sobre a sociedade, nossa política e religião, acabo por reforçar a ideia de que ainda há muita gente disposta a encarar opiniões como a base de fortalecimento que possibilita crescermos.

Outro fator interessante - e essa sim é uma mania minha - é o apaziguar de meus textos geralmente nos dois últimos parágrafos, uso deste artifício para saber se estou sendo lido até o final. Concluo então que essa leitura por inteiro ocorre justamente pelas pessoas não se posicionarem fervorosamente contra minhas opiniões, algo que vejo ocorrer muito com outras pessoas.

Minha abordagem nesse texto seria sobre os extremistas que ‘em nome da fé’ saíram metralhando pessoas em Paris, porém, acabei mudando esse foco justamente enquanto pensava sobre o meio o qual vivo, meio este que me permite a flexibilidade de opinião, um meio onde os poucos extremistas que conheci já nem sei por onde andam.

Resumidamente, sobre o assunto relativo aos terroristas, digo-lhes: Não confundam religião com religiosidade. A religião é algo herdado, algo transpassado pelo meio em que vivemos. Nenhum de nós nasce ateu, crente, católico, islâmico, aprendemos a ser através de um mundo mais material do que espiritual. Já a religiosidade é o contrário, ela nasce com todos nós e quando potencializada é capaz de reconstruir o ser humano voltado para o amor independente da situação a qual se encontre o seu meio.

Eis outro conceito importante para pensarmos. Por muito estamos confundindo a palavra evolução. Já não precisamos nos reunir em volta da fogueira para cozinhar e nos protegermos de animais maiores, porém, não podemos definir facilidades tecnológicas e organizacionais como evolução. Termos uma política como base ou mesmo qualquer tipo de crença não nos torna evoluídos, pois a qualquer momento podemos nos virar uns contra os outros. Não vejo uma real evolução no ser humano dos últimos dez mil anos, e refiro-me a evolução consistente da forma como tratamos o outro. Somos sim, regidos por um conjunto de leis que se abandonadas nos levariam aos primórdios. Não há nada de evolutivo nisso se não a mera imposição.

Voltando ao assunto sobre os que acompanham meus textos quero dizer: Jamais me foi sequer recomendado pelo Serra-Nossa uma abordagem específica sobre um tema, e essa é a parte mais saudável neste espaço que tenho desde o início do jornal. O não compromisso de tema fez de mim - o colunista - ao mesmo tempo criador e criatura, “Humano, Demasiadamente humano”, parafraseando Nietzsche. Eu sou a todo o momento influenciado pelo convívio com vocês.

Assim se inicia outro ano, ao que desejo para os textos que nascerem especificamente a este espaço? Que sejam lidos até o final, perdoados nas diferenças e acima de tudo que façam alguma diferença. Que saibamos crescer ao que parece ser o único paliativo para a doença do extremismo que cerca a humanidade; que saibamos absorver e dialogar com os pingos que nos restam de sobriedade.