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Perco-me entre textos, poesias e músicas, percebi então que a melhor forma de arquivar era dividir. Nesses anos, muito do que não se perdeu foi graças a quem acompanha meu trabalho. Assim, na imensidão virtual deixo essas pegadas, parecem dois únicos pés, mas acreditem, carrego muito de vocês aqui.

sábado, 27 de junho de 2015

A liberdade para ser e se frustrar

Somos um arquétipo do ser humano moderno, livres. Somos o presente que o passado esperou nascer. O que existia antes de nós era medieval, antiquado. É tão presente essa ideia de mundo novo que deixamos de nos importar com quando ele realmente iniciou. Sim, pois ideias de liberdade, princípios de felicidade e buscas não surgem alheias ao homem em seus primeiros passos, elas são aprendidas.
Somos a geração ciência, que não acredita em coisas doentias nas quais os antigos acreditavam. Sim, somos livres: para escolher a roupa e corte de cabelo, a marca de água que iremos beber e a proteção de tela do nosso celular. Temos a liberdade sexual, o poder da escolha dos parceiros. Somos livres, lutamos por isso e acreditávamos que a liberdade era um dos pilares da busca fundamental – fosse ela qual fosse. Porém, não contávamos com a liberdade do outro, liberdade essa que nos leva também a sermos ou não escolhidos. Fomos, então, de encontro à solidão.
Olhamos os jovens de hoje e pensamos: “Eles estão indo muito rápido”. Mas não foi assim que planejamos as próximas gerações? Não nos orgulhamos de ver uma criança de seis anos dominando a tecnologia que faz um senhor de 60 ficar totalmente perdido? E esse medo da velhice: será que o que nos atormenta é a finitude ou a sensação de estarmos ficando ultrapassados, prestes a sermos tragados pelo passado, servindo, no máximo, de referência aos futuros?
Tento não confundir minha sensação de obsolescência com alguma ilusão sobre um futuro perdido pelo fato de eu simplesmente não estar nele. E daí se tudo está andando rápido demais? O que, afinal, é moral? Um casal ficar por 50 anos junto sem se amar é certo? E jovens dizendo “te amo” na mesma semana em que se conhecem é errado?
Talvez a essência humana não tenha mudado tanto quanto pensemos. Quem sabe até sejamos os mesmos de sempre, buscando as mesmas respostas e sabendo que, mesmo se essas surgissem, não nos bastariam. É o jeito que a roda gira, a cada década do seu jeito, nem melhor ou pior, apenas mutável superficialmente e apenas o suficiente para parecer que não estamos parando ou mesmo que estamos tentando mais que outros.
Já depositamos nossa fé em moiras, as três velhas que teciam o destino dos homens. Já acreditamos em um Deus segurando raios, em um com asas nas botas e outro que controlava as ondas do mar. Já endeusamos uma teoria, absorvemos as escritas incríveis de Platão e dela inventamos o cristianismo. Já endeusamos homens, uns bons, outros maus – vide Hitler e a população de um país que o seguiu para exterminar outros. Já escravizamos nossa gente e acreditamos que, por uma mera questão de cor, alguns não pertenciam à espécie humana. No século 17 passamos a acreditar na ciência e razão, capengamos essa ideia por 300 anos. E agora, no que cremos? Na lei da atração – se pensarmos positivamente o universo conspira por nós? Que somos sagrados por sermos feito da poeira de estrelas? Em meio a tudo isso, apenas uma coisa é realmente concreta: o ser humano implora e se apoia em qualquer sentimento que o faça parecer menos banal.
Sempre que penso em passado, presente e futuro me ocorre uma sensação de que seguimos caminhando como os primeiros de nossa espécie: em meio a um deserto, sem noção de para onde ir e o que procurar; sem bem saber de onde viemos ou mesmo se vale a pena seguir.
Discursamos sobre liberdade, mas o que é ser livre? Falamos complexamente sobre felicidade, amor e autoconhecimento, mas somos tão rasos em conteúdo que qualquer pessoa com um pouco mais de sapiência já nos deixa sem entender nada. Falamos em futuro perdido como se alguma vez nossa espécie tivesse se encontrando nesse inóspito lugar chamado “eu”.
Esses somos nós, livres?! Para sofrer talvez.

terça-feira, 2 de junho de 2015

Silêncio e asfalto

Colorido, escuro. Colorido, escuro... E assim segue. Meus olhos estão fechados, mas não basta para que a luz que foge entre as frestas da janela não me incomode. Meu ombro direito cansou daquela posição, mas para a esquerda fico de frente a essa janela que parece se movimentar ao ritmo do letreiro instalado a alguns metros do hotel onde estou hospedado. Decido então aceitar o sono que não chega, ligo a TV: nada de suficiente passa nos canais. Sobre a cama ao lado, apenas o violão em seu estojo surrado, ferido e cansado pelos compartimentos de bagagens.

Lembro e penso nas épocas de banda, os dias na estrada. Os quartos de hotéis já foram mais barulhentos, algumas mulheres, algumas bebidas, alguns companheiros de estrada. Saudade? Nada. Passou – como tudo na vida passa – e hoje, saudoso, penso ter durado somente o tempo que deveria.
Lembro e penso – agora um pouco menos – nos meus relacionamentos, em ex-namoradas. Saudade? Certamente! Saudade boa, das diferenças, dos aconchegos e risadas divididas. Volto, então, para o quarto de hotel. A luz do letreiro lá fora segue piscando e me incomodando, assim como me incomodaram antigos relacionamentos. Nesse comparativo, eu aceito aquela luz, a contemplo silenciosamente repetindo em pensamento: um dia você sentirá saudade dessa noite em que a luz lhe rouba o sono.
Bem verdade sei que não é a luz que me impede de dormir, mas os anseios. Às 6h preciso estar de pé, três palestras no mesmo dia para públicos distintos: crianças pela manhã, adolescentes durante a tarde e adultos à noite: Acredite, são os adultos que mais me preocupam. Enfim, tem coisa pior do que precisar dormir e não conseguir? Na vida, tudo que se precisa fazer se torna aflitivo e deixa aquele gosto de precipitado. Imagine-se em um balcão de bar. Um amigo lhe aponta o canto onde está uma garota e lhe diz: “É por aquela que você precisa se apaixonar”. Isso não funciona, nada que se precise funciona, pois tudo de mais mágico na vida independe.
Penso em fumar um cigarro naquele quarto escuro, mas – peraí – eu não fumo. Talvez um gole de uísque... Ah é, eu também não bebo. Sobrou tocar o violão. Mas e se nos quartos ao lado outros estiverem dormindo? Que canalhice esse lance de vícios: os destruidores são silenciosos, os saudáveis atrapalham outros.
Já são 3h. Desço as escadas daquele hotel à beira da estrada. Lá embaixo, além das cores do tal letreiro luminoso, algumas lâmpadas fluorescentes acesas. Fico observando as borboletas por alguns segundos, em seguida meu olhar corre ao longe. Observo os caminhões, todos alinhados, cortinas fechadas. Passo a lembrar do meu avô, que por anos teve como lar as estradas, e dos momentos em que eu o acompanhei, quando pequeno.
Esqueço que estou longe de casa. Eu moro em minhas lembranças, meu principal alimento são os pensamentos. Não me importo mais em não dormir, talvez eu fique acordado até às 6h e apenas dobre a dose de cafeína para aguentar o dia cheio.
Subo ao quarto agraciado pelas lembranças. A solidão sempre foi a minha mais sincera companheira. Deito com o violão sobre mim e, mesmo não podendo tocá-lo, desenho algumas notas com os dedos. Sem perceber, adormeço.
A vida é assim: quando nos livramos das obrigações, nenhuma luz atrapalha e adormecemos tranquilos. Da noite anterior restaram lembranças. Em breve estarei cercado por aqueles de quem gosto e por alguns momentos ficarei em silêncio. Eles não sabem, mas é assim que os agradeço.

terça-feira, 26 de maio de 2015

Dance nos ventos da mudança

Dia após dia, visito o passado. Não há como ser o que somos sem levar adiante o que já fomos. Esbarro em textos antigos e vejo que a prática me fez evoluir: é um processo normal, não é mesmo? Treinos que nos aprimoram. Engraçado é quando esbarro em elogios dados por outros a esses antigos textos. Aí surge a dúvida: tornei-me complexo ou complexado?
Soa estranho para quem vivencia a ideia de já ter sido melhor em algo – ou, no mínimo, mais claro. Talvez antigamente as pessoas me entendessem melhor. E o mesmo vale para os textos. Em tempos em que meu vocabulário era mais limitado, meus pensamentos menos inquietos, meus desejos mais indefinidos e minha tristeza menos retocada, eu talvez fosse mais direto.
Evoluir é deixar muita coisa para trás, inclusive partes de você. É doloroso o viver, pois todos os dias – mesmo que imperceptivelmente – nós nos despedimos de algo. Você nunca sentiu isso em dias em que é invadido por um vazio sem motivos aparentes?
Tente resgatar a memória mais antiga do seu primeiro quarto, aquele em que você passou parte de sua infância. Relembre as cores da parede, as falhas na pintura, tente recordar o teto que você observou por tantas noites antes de dormir, o chão em que durante a noite você pisava quando levantava para ir tomar água. Conseguiu recordar? Essa lembrança não surge triste, não é mesmo? Mas você se imagina tendo seguido a morar nesse quarto até hoje e pelo resto da sua vida? O que ocorre dentro de nós é algo bem parecido: esse vazio que nos seca por dentro como se fôssemos rachar é nada além do que o gosto das mudanças. Logo haverá um novo chão, um novo teto, uma nova cor e novos móveis. Nada melhor ou pior, apenas necessário.
É no inverno que as raízes mais se aprofundam e ganham força. Aquela árvore cheia de vida que contemplamos na primavera não foi moldada por dias amenos de verão: foram as mudanças que sacramentaram sua seiva. Uma árvore não reclama das estações que a maltratam, das folhas que dela se desprendem ou mesmo das cordas de balanços que nela se amarram. Uma árvore seca as partes mortas e deixa os galhos secos irem ao chão, pois sabe que logo estes galhos irão se decompor e se reintegrarem ao solo que a sustenta.
Nós podemos gritar, chorar, sofrer enquanto tentamos segurar algo que, cedo ou tarde, o vento levará. Diferente de uma árvore, a nós cabe a sensação de que tudo podemos controlar. Mas quanto sofrimento recai sobre os que tentam impedir a mudança das estações? Como poderíamos comtemplar a luz do sol tocando nossa pele sem termos passado pelo gélido inverno? Como veríamos a beleza das folhas secas de plátano a dançarem no ar se não fosse o outono derrubá-las?
Não nos cabe impedir a mudança. Podemos, sim, lutar contra ela, mas tudo que conseguiremos será prolongar o sofrimento. Ser forte também é ceder aos ventos do norte. É isso que a vida faz: ela se renova e, mesmo o que nos parece pertencer, um dia irá ao chão, pois deste mesmo lugar viemos. Uma troca justa.

terça-feira, 28 de abril de 2015

Já naveguei em barcos de papel

Recentemente uma empresa de softwares escondeu um prêmio dentro de seus termos de uso para aqueles que desejassem usar seus programas. Entre as cláusulas do contrato virtual uma frase avisava que o primeiro a reclamar um pagamento junto à empresa receberia mil dólares. Foram necessários mais de cinco meses para alguém se pronunciar e receber a grana ‘fácil’.
No metro de Washington, o famoso violinista americano Joshua Bell tocou durante 45 minutos seu violino Stradivarius de 1713, avaliado em US$ 3,5 milhões. Bell, que vestia cala jeans e uma camiseta simples, não despertou a atenção dos milhares que passavam por aí: todos seguiram seus caminhos sem imaginarem que, alguns dias antes, pessoas haviam pago mais de cinco mil dólares para assistirem esse mesmo Joshua Bell.
Paro observar uma garotinha e sua boneca. O brinquedo não é novo, o cabelo cheio de nós e vejo que falta uma parte da perna, mas nada que impeça a garota de saltitar feliz enquanto seus pais observam as vitrines. Questiono-me: Quanto tempo resta à boneca de rosto riscado e membros tortos? Quanto tempo levará para que a garotinha se contamine com a grandeza estapafúrdia desse mundo excêntrico dos adultos?
Ainda contemplamos um belo nascer do sol, um final de tarde de céu anilado, um inverno chuvoso sob as cobertas... Mas é tão passageiro o conforto, dura o espaço de um respirar profundo. Nada dura mais do que segundos e qualquer minuto de contemplação já nos ressoa exageradamente como perda de tempo.
Nos últimos 20 anos, nosso tempo médio em frente a TV passou de 30 minutos para 3 horas por dia. Na internet, a média brasileira é de 5 horas diárias – somos ainda os segundos colocados em acessos a vídeos e redes sociais. Mas espere, e aquela pressa toda no trânsito, aquela frase tão entoada: “não tenho tempo”. Será que realmente não o temos ou apenas usamos o tempo que temos muito mal?

Basta uma caminhada pelo centro das grandes cidades para percebermos que o brinquedo simples já não serve mais. Tornamo-nos arredios a tudo que é de graça, como se o consumo material freasse o consumir de nosso corpo durante os anos. Queremos enganar a vida não parando para conversar com ela.
Não há mais espaço para os acasos. Afinal, o que estaria fazendo um músico conceituado em uma parada de ônibus? Ou um escritor renomado a escrever frases em vitrines de lojas? Por que um pintor famoso iria expor suas telas de graça em uma praça pública? Ou mesmo, por que deixar meu filho brincar com seu brinquedo quebrado se posso comprar uma moto movida a bateria para ele?
Leva anos para aprendermos a cultuar um monte de ferro pesando 800kg que queima petróleo – em outras palavras, um carro. Leva outra década para acreditarmos que, quanto mais alto o andar, mais iremos contemplar a vista da cidade. Levam-se muitas noites mal dormidas para, enfim, crermos que acordar às 7h, tomar um café às pressas e retornar para casa às 19h, exauridos, seja a receita de uma velhice cheia de paz. Dá muito trabalho acreditar em tantas mentiras.
Por isso vivemos cansados: não é pelo dia de trabalho, o trânsito caótico, as férias que parecem tão distantes. O que nos cansa mesmo é não acreditarmos nas mentiras que nos ensinaram a repetir todos os dias. Pois, no fundo, queríamos seguir brincando com as coisas simples, olhar os bobos que contemplam vitrines e rir deles. O que dói é saber que, lá dentro, parte de nós ri do que nos tornamos.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Nada nos pertence, nada podemos exigir

“Uma árvore que cai faz muito mais barulho do que uma floresta que cresce”. E quantas árvores desabam à nossa volta todos os anos? Diante das clareiras do que não mais nos cerca, surge nosso nu espiritual, uma experiência que nos ridiculariza, mas que surge para também nos fortificar.
De onde vieram nossos inimigos? O que odiamos, repudiamos e alimentamos? Por que o fazemos? Sempre há e sempre haverá pontos de interrogação em meus textos: escondê-los seria disfarçar quem realmente sou, pois há mais dúvidas do que até mesmo água em mim.
No giro da moeda profetizamos sorte ou azar: que lado o destino escolherá e qual lado escolherei? E assim, todos os dias, nos lançamos ao ar. Reclamamos da fila do supermercado, do imprevisto no trabalho, do acaso que todos os dias nos toca o ombro e faz olharmos para trás. Raramente nos ocorre que as coisas são porque são e, se aqui ainda estamos, por que não aceitá-las?
Todo ódio contra alguém é o ódio contra si. Junto dos anos se acumulam medos. Pensar neles seria doloroso, então os reservamos ao subconsciente, fingimos esquecê-los e, sem percebemos, passamos a ser controlados por eles. Pense por um minuto na maior tristeza da sua vida, a maior dor que lhe coube. Reflita sobre a exata situação a qual foi exposto na época e toda a dor que sentiu. Agora pense: como isso me influencia hoje? Você olha para os dois lados antes de atravessar a rua? Você dorme do lado direito da cama? Come assistindo o jornal do meio-dia? Desvia o olhar dos que lhe encaram?
Um sábio foi indagado: “O que faço quando, na meditação, um demônio se aproxima?”. O sábio respondeu: “Põe o demônio a meditar contigo”. Todos têm seus demônios e traumas que se tornam imperceptíveis. Para notar o que nos tornamos precisamos nos assumir aos medos. É doloroso, mas tão necessário quanto encher nossos pulmões de ar a cada segundo. Os resultados demoram a aparecer – talvez décadas –, porém, um dia vivido na intensidade de nos sentirmos perceptíveis aos motivos de nossos prazeres e desprazeres é mais poderoso que cem anos de tormenta.
Sempre haverá uma interrogação em sua vida, a dúvida está presente mesmo em pessoas iluminadas e repletas de paz. A diferença não está em tê-las ou não, mas em como lidar com elas.
Os medos nos isolam como se todos à nossa volta soubessem lidar com os seus, como se nadássemos sós em uma imensidão de angústias. Na ânsia de não nos afogarmos, queremos ficar acima das ondas, mas somente quem se deixa submergir percebe quantos corpos nos cercam, corpos daqueles que exauriram suas forças tentando, justamente, não se afogarem. Para perceber que não estamos sós, precisamos colocar nossos demônios a meditarem, tomar fôlego e descemos à profundidade de quem realmente somos.
Quando começamos a dialogar com nossas atitudes e investigamos aquele sentimento ruim que nutrimos por alguém, quando mesmo diante da cegueira da inveja, da cobiça e de tantos outros medos passamos também a ver os motivos que nos levam a isso, passamos então a ter perspectivas da paz. É quando paramos de culpar o mundo que assumimos a responsabilidade pela moeda que dança no ar. Não se trata de sorte ou azar, se trata de uma única moeda e seus dois lados, o giro contínuo que põe amigos e inimigos, alegrias e tristezas, promessas e mentiras, tudo lado ao lado, tudo pertencente a essa moeda a qual damos o nome de vida.
É impossível passarmos por aqui sem provarmos. Alguns dançam rumo ao conhecimento, outros rastejam um labirinto de pedras. Não se trata apenas das escolhas: trata-se de reconhecer que, por mais que façamos o que nos pareça nobre, ainda assim a moeda seguirá girando. Não se trata de vencer ou perder, mas de aceitar que não somos donos de nossas vidas, não fomos nós que nos autocriamos. Estamos à mercê do que não controlamos. Nada nos pertence e nada podemos exigir. A floresta cresce em silêncio e ela é grandiosa, nossos gritos são fortes, mas não nos impedem de cair. Ouça o que o silêncio diz.

terça-feira, 7 de abril de 2015

Humanidade em queda: Quanto tempo leva para cairmos na real?


Necessitamos estar certos, mas por vezes juro que não desejaria. Em uma semana escrevo sobre a depressão que a cada 40 segundos leva uma pessoa ao suicídio. Na semana seguinte, um cara decide jogar um avião cheio de histórias contra montanhas. Um ano antes aviso sobre a violência próxima a explodir em nossa pequena cidade e no ano seguinte batemos recorde de assassinatos. Eu encho a boca pra dizer que esse país não tem solução e cada vez mais pessoas concordam com meu desânimo. Todos esses acertos nada significam para mim.

Eu acredito na força do pessimismo, penso inclusive que por vezes ele seja mais poderoso que esse lance de ver um lado positivo em tudo. Aliás, desconfio dos demasiados sorridentes e suas certezas sobre o homem caminhando para a harmonia. Essa necessidade de nos vangloriarmos em espécie é uma projeção da sobrevivência, só isso. Nós nos sentimos importantes, fundamentais, o centro... Dessa forma não nos abalamos ainda mais com essa loucura que nos é esfregada na cara. Ser positivo é estacionar no amarelo do irreal.

Essa maldade intrínseca nos intimida. O acesso e a velocidade da informação nos trouxeram a dilacerante imagem dos monstros e, olha só, eles se parecem conosco. Por um segundo parei a observar o jovem de 21 anos que covardemente matou outro cravando-lhe um copo na garganta: ele parecia tão humano! Suas linhas, seus olhos, suas roupas... Poderia passar por mim diversas vezes no dia sem que eu suspeitasse da demência que lhe acompanhava. É isso que nos apavora: ver no reflexo da maldade um rosto meramente humano.

O outono está chegando, junto dele a sensação de que tudo está igual e nada vai bem. Será que o mal está vencendo? Queria sinceramente acreditar que não, queria mais uma vez estar errado, mas, quanto mais andamos, mais nos deparamos com o despreparo humano para tal caminhada. É um jogo de estica e puxa, gente derrubando gente, interesses ditando relações, conexões frágeis feito guardanapos em refrigerantes.

Tanto potencial desperdiçado. Você para a fim de observar um casal de velhinhos e pensa: que espécie incrível somos: inventamos o amor e com ele nos transformamos. Vemos um garoto brincar com seu cãozinho e sorrimos a graça das diferenças que se completam. Vemos um avião erguer-se e contemplamos nossa capacidade de aprender com os pássaros. Será que um dia apagaremos as linhas imaginárias que dividem pessoas? Será que um dia nos solidarizaremos com as vítimas de guerras que já duram dois mil anos? Será que um dia andaremos pelas ruas sem o risco de encontrar outros jogados ao frio? Seria, é, tão simples, já tivemos tanto tempo, mas nunca parecemos realmente tentar acabar com isso.

Assim se fez nossa história: de guerras, chacinas e ganância. Nossas religiões foram responsáveis por mais sofrimento do que salvação. Nossos deuses servem de desculpas para odiarmos outros. Todas as soluções se voltaram para o “eu”.

Não há desgraça que nos surpreenda e para a loucura buscamos justificativa. Como no caso do garoto morto no banheiro de uma festa: “ele deve ter feito alguma coisa”, então, diante de testemunhas que afirmam que ele não fez absolutamente nada, entendemos mais um pouco da insanidade a qual todos estamos expostos.


Um poeta cantou: “as pessoas têm medo das mudanças. Eu tenho medo que as coisas nunca mudem”. Hoje, décadas depois, canto-lhe triste em resposta: Eu também, eu também... Amém.

sexta-feira, 20 de março de 2015

Se eu não fosse estúpido, queria ser Diógenes

Já fui abordado tantas vezes por mendigos que penso ser difícil alguém nunca tê-lo sido. Eu poderia dizer moradores de rua, mas nem sei se todos esses moram realmente na rua – além  do mais, acho legal a palavra mendigo, a interpreto como “um sábio desconhecido”.
Há quem se esquive desses caras maltrapilhos que vagueiam transportando sua sujeira e seu silêncio pelas ruas noturnas que nós mal conhecemos. Pode ser um reflexo medonho da realidade, uma percepção a qual queremos evitar sobre o tanto em comum que temos com aqueles seres tão desprezados pelas massas.
Quem já parou para conversar com um cabeludo de cobertor nas costas sabe que as doses de loucura são geralmente bem menores do que as de lucidez. Isso é um choque danado: notar a tão tênue linha que separa as condições sociais. Você fala com esse cara por 5 minutos e só encontra justificativas para ele ter acabado nessa; falando por 10 minutos surge um contraste entre a sapiência e demência total; agora, se você conversar com ele por 1 hora, logo, você se tornará um igual, ouvirá suas histórias e irá se deparar com o mendigo que existe dentro de você mesmo – de todos nós.
Não sei bem por que entrei nesse assunto, talvez seja a influência dos livros de Diógenes, alguns dos quais eu estava relendo há algumas semanas. O Diógenes em questão era um mendigo que vagava pelas ruas de Atenas, morava em um barril – sim, ele inspirou a residência do personagem Chaves – e era sempre visto portando uma lamparina sobre o argumento de que a usava como luz para encontrar um raro homem ainda honesto. Esse vagante constantemente chamado de cão era, na verdade, um antigo discípulo do filósofo Antístenes, o qual fora pupilo de Sócrates. Diógenes acreditava que o possuir era a destruição do homem e por isso teria abdicado de qualquer bem. Também desprezava a opinião pública de uma sociedade corrupta e sem valores.
Há uma história bastante conhecida sobre um encontro de Diógenes com o então e já todo poderoso Alexandre, o Grande. Dizem que certa vez Alexandre parou de frente ao judiado homem que tomava sol. Sem perceber que havia tapado a luz, indagou: “Diga-me, homem, o que posso te dar”. Diógenes respondeu-lhe: “Não me tires o que não podes dar!”
Um homem comum teria visto desrespeito em tal resposta, mas Alexandre não era um homem comum e, enquanto pessoas do povo e os próprios guardas de Alexandre riam daquele velho homem, ele disse: “Se eu não fosse Alexandre, queria ser Diógenes”. Todos se calaram.
Vejo uma beleza ímpar em tal citação. Ela demonstra a percepção de um homem que tinha tudo, mas que sabia na verdade não possuir nada. O poder era a âncora que prendia Alexandre à mediocridade dos que, assim como mendigos – só que sem a alma –, ficam a vagar bajulando aqueles que podem lhe garantir disfarces para a pobreza interior.
Pode parecer ilógico pensar isso, mas talvez esses que andem por aí como se fossem invisíveis, visto como loucos, sintam muito menos o peso do mundo do que nós. Sou livre? Por quê? Por poder escolher a cor da embalagem de maionese? Por possuir alguns papéis na carteira que me dão o direito de entrar em uma loja? Eu não faço ideia de qual seja o nome da última atendente que me recebeu e me vendeu algo – e olha que ela não se vestia nem cheirava como um mendigo.
Não podemos combater a pobreza com Bolsa-família ou moedas no semáforo. Não se engane com o que os olhos lhe permitem ver: a miséria é interna e todo nosso esforço para escondê-la não faz com que ao fim do dia ela ainda não esteja lá.